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Christmas Island-Honolulu
antes...
Pago Pago-Christmas
Island
Levantámo-nos cedo, depois da já costumada noite de insónia. Não há nada a
fazer, senão aguentar e colher a vantagem de não precisarmos de ser acordados,
pois nunca chegamos sequer a adormecer. Aqui, esqueceram-se de nos acordar.
Fomos para o aeroporto depois de um pequeno almoço, servido
ao "ralenti" por um empregado que, tive no mínimo, vontade de assassinar, tal a
sua indolência. Coxo como eu, parece que aceitava de bom grado aquela baixa
rotação que Deus lhe deu, o que nem por sombras sucede comigo. O "faz que chuta"
conseguiu pôr-me os nervos em franja sem causar, contudo, a mínima beliscadura
ao Delfim, dotado de uma verdadeira fleuma britânica.
No aeroporto, encontrámos estacionado, ao lado dos nossos
aviões, um Beechcraft A 36, motorizado com um "turbo hélice" (já sabíamos que
ele lá estava, pois estivemos a falar com o piloto de "ferry" na véspera). Ao
olhar para aquela beleza que faz quase 180 nós de VAV, senti-me como um puto a
esfregar as ventas na montra de uma pastelaria para ver melhor os bolos,
completamente inacessíveis. Por acaso, o referido piloto de "ferry" numa
conversa, basicamente alimentada pelo Delfim, que adora este tipo de "hangar's
talking", já tinha "ido à água" perto de Honolulu. Por azar meu, que só me
apetecia ir para a cama, o meu compagnon de route reconheceu de imediato
a criatura versus amaragem, de um artigo publicado numa revista aeronáutica e
disse :
"Is that you the guy? I read an article about your
ditching..."
A estrela da noite, empertigou-se como um faisão e disse espalhando as penas
como os flaps de 747 ao descerem:
"Yes, yes, I was in most aviation magazines..."
Disse para comigo: "... já estou quilhado, a conversa vai durar a noite toda e o
tema é do melhor para quem vai fazer amanhã, 1400 milhas náuticas em cima da
"banheira"...". Não foi fácil acabar com a conversa, mas por fim lá dei um
jeito.
No aeroporto, o Delfim ajudou-me a instalar no meu avião e
fez-me as purgas do combustível (já aceita este procedimento como um verdadeiro
"fado" que o destino lhe deu!!), iniciando depois a tarefa melindrosa de fazer o
plano de vôo, para S. Francisco, usando para tal, o milagroso telefone satélite.
Perdeu-se um bocado de tempo com tudo isto e descolámos já
com o dia a nascer. Falámos com a Torre de Christmas em 118.1, operada pelo tal
indivíduo que nos recebeu à nossa chegada. O tipo estava em contacto com S.
Francisco em HF e de imediato nos passou a mensagem que S. Francisco nos queria
no ar em HF.
Pensei, "...comecei a voar agora e já vou ter que pôr os tímpanos em carne viva
com o maldito HF...". Parece eu, que advinhava!!!
Andei às "turras" com as frequências de HF de S. Francisco,
quase três horas. Entretanto o piloto de "ferry" descolou e simpaticamente
passou as nossas mensagens para S. Francisco em HF. O gajo era bom naquilo.
Depois veio um "big shot" da Aloha Air que também deu uma mãozinha, em resolver
a birra que se apoderou do S. Francisco Radio. Ou a gente falava com eles em HF
ou então tínhamos de voltar para Christmas, a legislação da ICAO era bem clara,
two ways communication, vejam bem!?
Aqui o Delfim teve uma belíssima intervenção, mandando o
recado que: "...nem pensar numa coisa dessas...", ponto final, parágrafo.
"...ganda Transmontano, este meu compagnon, é assim
mesmo...", pensei eu, lá de onde estava, cansado que nem um maratonista a
cortar a meta em último e de gatas. Já quase não conseguia falar de tanto chamar
o S. Francisco Radio. Pensei que, se calhar, à chegada a Honolulu, iríamos
dentro. Sei lá, isto com os Américas, não se brinca!!
Finalmente, como por milagre, apanhei S. Francisco forte e
claro. A partir daí, acabaram-se os problemas de comunicação em HF. Resolvido
que estava este problema, comecei a pensar dar uma vista olhos às cartas de
Honolulu, pois o Delfim já me tinha feito uma pergunta acerca delas. Repuxei do
dossier e tirei-as para fora. Eram tantas as pistas, as cartas, os pontos, etc,
etc que até me senti enjoado...
Disse para o Delfim: "... que grande caldinho, estas
cartas de Honolulu...". Naturalmente que, passado um bom bocado, não tive
outro remédio senão estudá-las a fundo.
Ainda bastante longe do destino, fui instruído para por S.
Francisco Radio para contactar Honolulu em VHF. Finalmente, via-me livre de toda
aquela barulheira que me massacrava os ouvidos.
Havia bastante tráfego e os controladores falavam bastante
depressa, tornando-se para nós, muitas das vezes, difíceis de entender. Mas, com
uma no cravo e outra na ferradura, lá compreendemos as instruções que nos deram
e aterrámos em segurança na pista 04 do aeroporto internacional de Honolulu.
Saímos para o estacionamento aonde, a Air Service Hawaii tem os seus serviços.
Ao sair do avião, colocaram-nos no pescoço o famoso colar de
flores do Hawaii. Gesto simpático! Apareceu, então, o pessoal da alfândega que
nos infernalizou a vida com um número infindável de impressos para preencher.
Finalmente, abandonámos o aeroporto no carro do Willy Tashima
(Earthrounder com duas Voltas ao Mundo no seu palmarés) com destino à zona
Waikiki, aonde a companhia de handling, nos reservou quarto no hotel. O Willy
tem-nos prestado inegável ajuda, o que muito lhe agradecemos.
Este vôo, apesar de não ser muito longo, foi difícil e
cansativo. O Delfim debateu-se com "vários" ataques de sono a que se juntou um
piloto automático completamente inoperativo e eu pela parte que me toca, tive
pela frente um certo estado doentio que me tem acompanhado ultimamente e
estragado, muitas das vezes, o prazer de voar.
António Faria e Mello
a seguir...
Honululu-Hilo-Sta. Barbara |
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