|
antes... Christmas Island-Honolulu
O António deixou-me completamente à vontade endossando para mim a decisão, o que me punha um dilema ainda maior: esperar pelo Piloto Automático e eventualmente perder ventos favoráveis ou voar "à mão" um trajecto de 2100 milhas náuticas, cerca de 3700 km. A resposta veio como por acaso: não era possível fazer mais nada em relação ao PA. Consequentemente iríamos de qualquer maneira: já outros o tinham feito, porque não fazê-lo também? A nossa técnica de planeamento TMFD iria mais uma vez resolver esta situação que embora difícil poderia ser ultrapassada. Saímos de Honolulu por volta das 4 da tarde locais para aterrar em Hilo uma hora e meia depois do pôr-do-sol. Depois de reabastecer ainda fiz uma última pergunta ao António: Sentes-te bem? A resposta pronta acabou com a minha última esperança de ficar a dormir em Hilo e partir no dia seguinte. Descolámos já de noite, com algumas dúvidas, mas muita determinação. O vento teimou em não nos tranquilizar. Durante as primeiras duas horas arrastámo-nos pelos 103-110 knots, o que não nos permitiria atingir Sta. Barbara. Começaram a desenhar-se no horizonte as nuvens negras do regresso. É difícil transmitir o turbilhão de sensações que esta perspectiva acarretava. Voar até ao ponto de não retorno, provavelmente cinco horas e meia e ter de regressar ao ponto de partida, durante mais cerca de cinco horas. Pouco a pouco, à medida que nos aproximávamos da longitude 140 os ventos começaram a mudar, aliás tinha sido esta a previsão da meteorologia, baseada num modelo de computador. Nós estávamos a ensaiar, se fosse correcto, o modelo era bom, mas certezas só no fim. Um autêntico sufoco, olhar para o indicador de velocidade, como que a querer com a forca da nossa mente fazê-lo subir para os ansiosamente esperados 130 knots que nos garantiriam chegar a salvo a Sta. Barbara. Diz o povo que só nos lembramos de Sta. Barbara quando troveja, e de facto nunca o nome Sta. Barbara me passou tantas vezes pela cabeça, não porque trovejasse, mas na minha mente, ia uma grande turbilhão.
À forca de tanto olhar para a velocidade ou porque Sta.
Barbara intercedeu, lentamente, chegámos aos 130, 135, o que nos trouxe alguma
tranquilidade. Com toda esta preocupação quase me esqueci que não tinha PA e
tampouco tive daqueles ataques de sono que são tão difíceis de suportar. A
madrugada surpreendeu-me, pensando eu estar a ver o reflexo da luz da Lua, mas a
progressiva intensidade não me deixou dúvidas: o dia estava a nascer, ocorreu-me
então que voávamos contra o Sol com cerca de três horas de diferença entre os
pontos de partida e chegada. Comecei a descontrair e a acreditar que chegaríamos
a bom porto. Faltariam cerca de três horas quando o meu relativo descanso foi
brutalmente interrompido pelo António que me chamava pelo rádio para
dizer que o indicador de voltagem se tinha apagado!!! Fiz um grande esforço para
lhe responder com voz calma por entre uma náusea que teimava em subir do
estômago até à cabeça. Iríamos ter um replay da situação de
Colombo-Singapura? Sta. Barbara estava à vista e a situação mantinha-se. Desta vez não passara de um susto, grande, mas um mero susto, nada raros na aviação. Uma aproximação visual pôs-nos na pista, com grande contentamento nosso e porque não dizê-lo com uma ponta de orgulho - Tínhamos dobrado o nosso Cabo das Tormentas!
Leia aqui tudo sobre a Estadia no Hawaii! a seguir... Sta. Barbara-Carson City
|
| © Antonio Faria e Mello - Wings of Stubbornness - 2003 |